Ginjal e Lisboa

Ginjal e Lisboa

07 novembro, 2013

O sonho da matéria com que haverei de lhe tocar a pele dizendo o seu nome


Um dia chamarei o teu nome e tu virás. Sairás das águas azuis, cabelos longos como feixes de luz, olhos verdes e puros, peito amplo, braços brancos como as velas de um veleiro. Pensarei que vens para me abraçar. Ah, meu amor, que saudades tenho do teu abraço.

Talvez já não fales a mesma língua que eu, talvez já não te lembres de quando andavas ao meu lado, talvez te eleves no ar e comeces a voar. Que sei eu? Há tanto tempo que nada sei de ti. Levou-te o mar, o vento, a vida.

Não te tenho procurado. Tenho medo. Quem um dia mergulhou nas profundas águas do destino, lá deverá ficar. Mas, meu amor, se um dia o meu chamamento chegar até ti, não deixes de vir ao meu encontro, está bem? Mesmo que seja apenas para eu te ver de longe, partindo de novo, mesmo que nada mais eu possa fazer do que imaginar a minha mão a aproximar-se da tua pele.



[Abaixo do rio que corre azul nos cais do Ginjal, recebo com todo o gosto um novo Poeta aqui no Ginjal: Luís Quintais. Vem pela mão de Pedro Mexia pelo que vem bem recomendado e, do que tenho visto, parece-me uma boa recomendação. Logo a seguir, Mayra Andrade dá uma certa alegria a Dispidida]


O Tejo no Ginjal


                                                       Não recordo esse azul, mas sei
                                                       que ele se alia ao azul imaginado
                                                       pela acústica impressão:

                                                       desprende-se a sua voz, bate
                                                       no meu rosto, retoma a mais densa
                                                       compreensão, o sonho da matéria

                                                       com que haverei de lhe tocar a pele
                                                       dizendo o seu nome.


['O azul de Wallace Stevens' de Luís Quintais in 'depois da música']

1 comentário:

  1. Gosto de ver o vermelho do sol reflectido no rio. Também o Amor pode ser incandescente.

    ResponderEliminar