Ginjal e Lisboa

Ginjal e Lisboa

12 novembro, 2012

Dias de vinho e rosas na cidade aberta a dementada luz


Pede-me. Pede que peque, pede que eu peco.

Diz que me mostras o lado ardente dos dias, a chama e o gelo, o sangue e o vinho, diz que me levas à beira do precipício, que me mostras o atraente abismo. 

Diz. Diz que eu vou. 

Diz que me levas pela mão até ao jardim mais proibido, o das grutas do amor e da lascívia, o lugar onde a nudez mais absoluta é permitida. Diz que me levas até onde a voz é mais silenciosa, as palavras mais verdadeiras, o olhar é mais puro, o sexo mais desmedido.

Pede-me. Uma única vez bastará. Eu vou.

Não quero sequer pensar nos motivos ou nas consequências, não quero saber se a transacção é justa, se é equilibrada, se eu recebo tanto quanto dou, se o que me pedes é o justo valor para o que eu espero sentir. Não quero saber, não quero pensar. Não é momento para equações, para dissertações sobre a lógica, sobre a lei dos mercados. Quero lá eu saber disso. 

Quero apenas saber onde é esse paraíso (qual inferno!), quero apenas saber se vais comigo ou se lá estarás à minha espera.

Por isso, não demores, não hesites. Pede. Pede que eu quero ir.



[Abaixo da bela pintura mural, um poema dementado de Eduardo Pitta e, logo depois, mais uma bela interpretação de um trecho de uma outra ópera de Rameau]



Pintura mural numa parede do velho casario do Ginjal



                               Hesita bastante. O inferno
                               é uma disciplina como qualquer outra.
                               Dias de vinho e rosas
                               pagos a peso de flagelo.
                               O arrebatado comércio dos sentidos?
                               Na cidade aberta a dementada luz.


                               [Poema de Eduardo Pitta in Desobediência, Poemas Escolhidos]

2 comentários:

  1. Cara UJM, belo texto e bela música!
    De si, não esperaria o contrário. Eis-nos perante um tema arrebatador, ousado e eivado de uma sensualidade, a roçagar o libidinoso. A ternura de uma súplica brilhante e infernalmente “caliente”. Simplesmente encantado com as palavras exactas, alimentando a fogueira certa. Já estamos habituados à sua versatilidade quer nas ideias, quer nas palavras, quer na música.
    Curiosa a imagem da pintura mural, tal como o novo timbrado do “ginjal” e o poema de Eduardo Pitta.
    Mais uma vez, felicidades e saúde.

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  2. Olá dbo,

    Que bom sabê-lo por aqui, por este Ginjal que, de vez em quando, se veste de cores novas. Assim são os dias, umas vezes a verde e azul, outras vezes a dourado, umas vezes alegres, outras desamparados. Gosto de mudar os visuais dos meus blogues (como, eu própria, gosto de mudar de visual).

    E não sei o que me leva a escolher os poemas. Escolho-os um bocado insconscientemente e há dias em que o espírito do poema pega em mim e faz de mim o que quer. Geralmente acontece isso, escrevo sem pensar e nem gosto de reler para não me arrepender ou para não ter a tentação de alterar. Uns dias sai para o desolado, outras para o animado, outras para o desenfreado.

    Ontem foi isso que aconteceu, acho que foi aquela palavra, 'dementada'. Não sei.

    Hoje escolhi um pequeno poema de Eugénio e estou a escrever um texto todo melancólico. Vá lá eu saber porquê (já que até já coloquei uma coisa no UJM que não é nada melancólica... E nem sei se ainda não vou lá voltar).

    Agradeço as suas simpáticas palavras que são um verdadeiro incentivo para mim.

    Muito obrigada.

    A saúde vai indo bem melhor, especialmente agora que ando a fazer fisioterapia (coisa de que estou a gostar muito, parte é em piscina, quentinha, mesmo boa, outra parte é ultra-sons e ondas curtas, momento que aproveito para ler, depois ginásio e massagem. Duas horas de cada vez, duas vezes por semana. Uma maravilha, parece que estou num spa).

    Retribuo os votos: também para si felicidades e saúde!

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