Ginjal e Lisboa

Ginjal e Lisboa

26 junho, 2012

Águas que respiram a mesma raiz antiga


Tago - velho rio que vem de longe, de tempos longínquos, depois de muitas vidas, para agora, aqui, junto a mim que me apresento em reverência, se deitar, macio, leve, envolto num azul mutante, quase transparente, irradiando uma luz branca - traz-me as palavras do meu amor.

Tago, Tejo - doce rio que vem do fim dos tempos como uma raiz profunda, ancestral, sábia, e que depois, aqui, se transmuta em manto, em véu, em esperança nupcial para os que por aqui vêm sonhar: os elegantes veleiros, os casais, os pássaros de longas asas brancas - traz-me as palavras do meu amor.

Tejo amado - abençoado rio que avança junto às cidades que ilumina, que sussurra cânticos e palavras aos amantes imprevistos, que arrasta atrás de si cortejos de nuvens brancas e bondosas como anjos - traz-me as palavras do meu amor.

E, então, depois da prece, fecho os olhos, deito-me junto à margem, sobre a seda verde que cobre a terra húmida, sob o rendilhado subtil verde e rosa dos tamarizes, e deixo-me estar. Até que sinto uns dedos que se abrem sem rumor junto ao meu pulso expectante, umas palavras que murmuram silêncios quase como água numa cascata inventada, e o desejo que sinto vem desses dedos, ou vem de mim, não sei e nem preciso de abrir os olhos para saber que são as palavras e os dedos e os olhos e os beijos do meu tão desejado, do meu tão querido amor.

Depois, quando me levanto para voar abraçada ao meu amor, espero um pouco e agradeço, sentida, a este meu amado rio que tão delicadamente o trouxe até mim.



[Logo abaixo do rio mais um belo poema de Casimiro de Brito e, mais abaixo, uma nova maravilhosa música de Heitor Villa-Lobos]



O romântico jardinzinho do Ginjal, de frente para Lisboa, rente a um Tejo neste dia repleto de navios
(Repare-se nos dois elegantes veleiros)



Águas que respiram a mesma raiz
antiga. O pulso marítimo,
um pouco lírico. Nuvem que vai invadindo
praias secas, ossos acordados, dedos abrindo-se
sem rumor. Água cascata onde se ouve
o murmúrio do desejo.


[Poema 57-I de Casimiro de Brito in 'Amar a vida Inteira']

2 comentários:

  1. Depois da caloraça africana, um autêntico panegírico ao seu doce rio Tago, onde parecem sobreviver as inspiradoras Tágides que Camões tanto e tão bem cantou. Um Tago que realmente “sussurra cânticos e palavras (silenciosas?) aos amantes imprevistos.” Que as musas não se cansem de lhe despertar os sentidos. Continue a cantar a vida do seu Tago e partilhe-a com a sua, plena de vigor. Felicidades.

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    1. Olá Caro dbo,

      Pois é, com este calor africano só apetece mesmo mergulhar no rio ou, então, deitarmo-nos junto às margens, onde a terra está sempre molhada (e está mesmo, a terra ali, rente ao rio, está sempre húmida) ou sob uma sombra.

      Este rio inspira-me tal como sempre inspirou tanta gente.

      Hoje de manhã estava lindo. O tempo continuava quente e nublado mas, no sítio onde o sol reflectia, havia uma faixa dourada brilhante. Lá fui buscar a máquina e voltei a apanhar as gaivotas em contraluz sobre aquela superfície espelhada. Fico fascinada. Parece incrível, morando aqui há tantos anos, mas fico mesmo deslumbrada, ali pregada à janela.

      A ver se um dia destes já estou em condições de ir caminhar na beira do rio que estou cheia de saudades, já que agora é só vê-lo aqui da janela.

      Quanto ao que escreveu, gostei imenso de ler e tem razão: claro que o Tago sussurra palavras silenciosas. Quem as ouve, não sabe se as ouve, se as sonha, se, simplesmente, as deseja.


      Muito obrigada e uma vida feliz também para si!

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